Designer do Interior

Acostume-se: Você irá concorrer com o sobrinho do amigo

Não é fácil ser designer gráfico no interior. Há uma ausência de conhecimento técnico grande, por tal pode desvalorizar totalmente seus serviços. Conheça a realidade de quem exerce esta profissão nas menores cidades do país

Cidade de interior é cidade de conhecido. O mercadinho da esquina, que é do tio João, que é casado com a tia Joana, afiliada da Catarina, irmã do Bento vizinho da Roberta. São cidades que sua tabela de preço deve ser refeita do zero, no mínimo com um corte de 50% no preço. “Nossa, mas tudo isso para fazer um folhetinho? Esqueça, o filho da Maria faz isso aí de graça!”

Quando se trata de design gráfico no interior, é algo que deve ser meramente minimizado e consolidado a duas palavras: “deseinho” e “marquinha”. Basicamente é esquecer termos como branding, grids, folders, entre outros…

O fato é que: Ser designer gráfico não é apenas sentar diante de um computador e acreditar que tudo se limita ali, naquela tela. O computador é apenas uma ferramenta de trabalho e não o começo-meio-fim. O design é uma explosão de criatividade, envolvendo chamadas, noções, padrões e inspirações. Na visão do cliente é “aquele selo de cinco minutinhos, dois pauzinhos tá feito!”. E o x da questão é: Como adquirir esses dois pauzinhos? Que tipo de pauzinhos é o mais adequado para a elaboração do “selo de cinco minutos”?

No geral, as pessoas confundem o que diferencia o desenho feito no computador e o que de fato ele reflete. O cliente pede ao designer um deseinho, uma marquinha… É comum o cliente pedir para desenhar seu logotipo, mas a forma como se pede lhe parece apenas um simples desenho, um selo sem personalidade, sem qualquer semântica. Já parou para pensar a importância desse desenho? Imagine que esse desenho será carregado nas costas da empresa por longas datas, será bordada na camisa dos funcionários, impressa nos cartões de visita entre demais outros veículos de comunicação…

Esse é um exemplo digno de que, o aparente “fácil” pode não ser algo tão fácil assim. Na visão do cliente, oras, basta sentar no computador e fazer um deseinho simples, pronto, cadê a complicação?

A ênfase da elaboração de um logo é mais complicada do que se pensa. É como um script: tem que seguir certos passos, para depois passar para o computador. A ideia básica vem do que você vai ver. Como será o logotipo? Vai ter formas geométricas? Linhas arrojadas ou arredondadas? Nome? Quais as combinações de cores que mais se adéquam? Antes de tudo, a empresa faz o que? É de qual ramo?

Vamos imaginar o desenvolvimento de um logo para uma construtora civil. É difícil imaginar um logo de uma construtora com fontes ultra-light não é? Ou serifada demais… A essência da inspiração de um logo vem exatamente da origem das coisas, do que é. Você não vai criar um logo de uma construtora inspirada em lojas de lingerie.

Quando você é um designer gráfico no interior, é difícil explicar sua profissão. O diálogo seguinte é bem comum:

– O que você faz?
– Sou designer gráfico.

Pausa.

– Designer gráfico?
– Isso! Faço outdoors, folhetos, logotipos, essas coisas.
– Ah tá.

Não há um impacto do que é ser designer. Do que é ser alguém que faz um outdoor que possui quatro cópias na cidade, que será visto por uma média de trinta mil pessoas todos os dias. E aquele folheto de supermercado que chega à casa de todos e mal sabe quem faz tudo aquilo? É esse impacto que ninguém vê. E o impacto do logo, aquele “selo de cinco minutos”: Quantos não veem aquilo por dia?

Quando se trata de design, principalmente pra quem está começando: A primeira coisa que vem na mente é o computador. Hoje em dia, todo mundo tem na família o irmão, primo, tio, papagaio, amante que manja naqueles programas gráficos. O sobrinho que fez o cartaz da padaria, o cartão do seu Jorge, o convite de aniversário da Júlia. Porém, eles não são designers, são pessoas que dominam softwares gráficos! Há uma enorme diferença aí. O computador para o designer é a ferramenta que finaliza o trabalho, que deixa a ideia bonita, que transforma letras em linhas com dégradé. É como na engenharia: Ver equações virarem eixos, PiR² virar discos estruturais, cotas darem sentido a uma barra de reforço. Depois de centenas de folhas rabiscadas, esboçadas, alguns trechos de livros lidos, poemas, histórias é hora de juntar tudo e criar uma essência, a filosofia do produto final. Depois com a ideia montada ou pré-montada, passamos para o computador e finalmente cumprimos com o briefing.

Em agências, um dos maiores problemas que o designer enfrenta é o tempo. O cliente liga na agência cinco e cinquenta e nove e quer o serviço para ontem. Aí você tem que se matar para fazer algo bonito, bem feito e com boa impressão, num tempo muito curto. A modo popular “o cara tem que ser ninja”. A empresa tem trezentos itens a ser discutidos, e quanto à identidade visual? A marca? Os folhetos e outdoors teaser que será publicado? Ah, deixa por último é dois pauzinhos no computador.

O gosto do designer dificilmente agrada o cliente. O profissional tem uma visão ampla da coisa. Ele sabe que aquela linha fica boa ali. Simples, questão de design, luxo, elegância. Mas o cliente quer a linha grossa, vermelha, que é para chamar atenção. Mas muitas vezes um braistorming envolvendo o cliente resolve 50% da situação. É colocado o lado designer x o lado cliente. Qual a real necessidade do cliente e qual a real necessidade de aplicar as ideias dele no contexto.

Apesar dos demais problemas, o mercado do design gráfico anda crescendo bastantes pelas bandas do interior. Muita gente talentosa está sendo descoberta, o valor do design está tendo sua medalha polida, e a dedicação dos futuros designers está sendo bem rígida.

E aí?

As pessoas veem documentários na TV de designers que mostram, eles na maioria sentados em frente a computadores ultramodernos, com mesas lindas, porta-lápis e folhas rabiscadas e acha que tudo aquilo é tão tranquilo como mostra na TV. Acabam achando que, naquele ambiente agradável, ela vai entrar e sair dali sorridente, sem levar problema para casa, que vai sair dali às seis horas todos os dias, que não vai atender telefone. As pessoas, os colegas de trabalho numa agência são parceiros, bons, legais na maioria dos casos, mas não é um mar de rosas, como visto na TV. Para ser um bom designer, tem que trabalhar duro, ralar muito, aguentar pressão forte de todos os lados, ter que montar um projeto inteiro para ontem, caso contrário a gráfica não vai poder imprimir tudo para sair no dia seguinte. Apesar dos estresses diários (que irão ocorrer!), das contraditórias e ideias negadas, ser designer não é bem a profissão para quem quer ganhar dinheiro rápido. É para quem gosta, para que tem disposição para enfrentar o que vir para vestir a camisa “Eu sou designer”. Não se ganha muito dinheiro sendo designer no Brasil, principalmente no início. Mas força, garra e persistência, pode te tornar um bom designer, com muito sucesso profissional e econômico também.

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