Como a estética pode influenciar o usuário na facilidade em se usar algo?

Como poderia a estética de um produto influenciar na facilidade em usá-lo? Essa pergunta feita pelo autor do livro Design Emocional, Donald Norman, prova que a forma visual de certos produtos influencia a reação das pessoas em função dos objetos de consumo.

Em outras palavras, produtos de formas atraentes geram apego emocional em seus usuários. Mas por quê? O que há nesses produtos, quais características possuem para que despertem esse tipo de reação nas pessoas? No decorrer do texto irá se abordar atributos que possivelmente comprovem essa teoria.

A estética como fator de influencia na facilidade de uso do produto industrial

Segundo Milton Ribeiro (2000, p.149) “as melhores formas, as que mais impressionam, melhor se notam e de que mais facilmente nos recordamos, são as formas matematicamente determinadas como triângulo, quadrado, retângulo e eclipse“.

Pensando na estética do produto, Norman (2008, p.75), relata “quer você admita ou não, aprove ou desprovê, os produtos que você compra e seu estilo de vida ao mesmo tempo refletem e determinam sua auto-imagem, bem como as imagens que os outros têm de você”.

A cultura material faz parte da sociedade e é um valor humano, a meu ver. Assim como a cultura, educação, de cada individuo, interfere inevitavelmente na sua escolha por certos artefatos, aos quais são determinados não somente pelo seu poder aquisitivo, mas também, por sua cultura em geral.

O escritor Bernsen (1995, p.10) autor de “Design: Defina Primeiro o Problema“, delimita design como sendo significativo em se traduzir um propósito em uma forma física ou ferramenta. Este cita exemplos dos desenhos da natureza, cujas formas constituem-se ao mesmo tempo numa expressão de propósito, economia e beleza, e que tem uma relação viva com o mundo o seu redor.

Entretanto os desenhadores industriais utilizam os mesmos termos para o desenho industrial:propósito. Bem como economia de manufatura e construção, beleza e interação com o usuário e relacionamento com o ambiente. O fato de que os desenhos projetados pelo homem e os concebidos pela natureza, analisados em conjunto comum seguem algo semelhante em que ambos são soluções para um problema. Ambos são imaginados de maneira semelhante, como um processo de tentativa-e-erro. Portanto o autor define design como a integração de seis aspectos relevantes, tais como: Propósito, produção, construção, função, beleza e ambiente.

No design de produtos a forma coerente e harmônica atrai olhares e curiosos. Segundo Norman (2008, p. 39) “objetos atraentes fazem as pessoas se sentirem bem, o que por sua vez faz com que pensem de maneira mais criativa”. Como isso faz com que alguma coisa se torne mais fácil de usar. Lobach (2001) define estética como significante de algo da percepção sensorial. Define como sendo a “ciência das aparências perceptíveis pelos sentidos (por exemplo, a estética do objeto), de sua percepção pelos homens (percepção estética) e sua importância para os homens como parte de um sistema sociocultural (estética de valor)“.

Já o dicionário da língua portuguesa define estética como a ciência do belo, a filosofia das belas-artes, bem como a harmonia das formas, seus contornos e coloridos, etc. A estética nos produtos industriais é considerada fator importante para agradar os olhos dos usuários. Porém o que faz de um produto ser belo aos olhos dos observadores?Princípios de desenho e coerência formal são base para estudo do desenhador industrial. Este possui essa ferramenta de percepção visual, ao qual o diferencia de um simples inventor de qualquer coisa.

Um estudo realizado no inicio dos anos 90, por pesquisadores japoneses afirmam que de fato,objetos atraentes devem ter preferência em relação aos objetos feios e isso faz com que funcionem melhor aos olhos dos usuários. Mas por quê? Um exemplo claro, é que estes pesquisadores haviam estudado inúmeros leiautes diferentes de painéis de controle de caixas eletrônicos de banco, sendo que todas essas versões eram exatamente iguais em questões de função no numero de botões e na maneira como operavam.

Alguns, porém tinham botões e telas dispostos de maneiras diferentes, uns mais coerentes visualmente, outros não, simplesmente eram dispostos de maneira aleatória. O resultado dessa pesquisa revelou que os usuários achavam que os aparelhos considerados mais atraentes eram mais fáceis de usar, de compreender como este funciona. Estes estudos feitos em relação à percepção dos usuários para com a estética dos objetos de uso sugerem o papel da estética no design de produto. A resposta é que está ligado com o estado de espírito de cada um. Pessoas consideradas mais felizes, geralmente demonstram mais tranqüilidade em solucionar problemas, o que por sua vez, possuem mais paciência para conhecer os produtos e usá-los da maneira adequada.

Baseado nesses aspectos da biologia e emoção humanas, um estudo feito pelo Departamento de Psicologia na Northwestern University, propõem a existência de três diferentes níveis de estruturas do cérebro: a camada automática, pré-programada chamada de nível visceral; a parte que contém os processos cerebrais que controlam o comportamento quotidiano, conhecida comonível comportamental e também a parte contemplativa do cérebro, ou nível reflexivo. Cada nível desempenha um papel diferente no funcionamento integral das pessoas, sabendo que cada pessoa possui uma maneira diferente de percepção das coisas que o cercam.

Segundo esse estudo cada projeto em si diferem de exigências diferentes entre os níveis. Por exemplo, o nível visceral é pré-consciente, anterior ao pensamento, é onde a aparência importa e se formam as primeiras impressões. Este nível é veloz, ele faz julgamentos rápidos do que é bom ou ruim, seguro ou perigoso, e envia os sinais apropriados para os músculos (o sistema motor) e alerta o resto do cérebro. Este é o fundamento do processamento afetivo.

Já no nível comportamental é onde se localiza a maior parte do comportamento humano. Suas ações podem ser aprimoradas ou inibidas pela camada reflexiva e, portanto, ela pode aperfeiçoar ou inibir a camada visceral. O design visceral diz respeito ao impacto inicial de um produto, à sua aparência, toque e sensação. Já no nível comportamental diz respeito ao uso, é sobre a experiência com um produto, porém a própria experiência tem muitas facetas, tais como função, desempenho e usabilidade.

De acordo com o autor um produto deve sim ser atraente. Ele também deve ser prazeroso e divertido. Contudo também tem de ser eficiente e inteligível e também ter um preço apropriado. Em outras palavras, deve buscar equilíbrio entre os três níveis de design. Vamos citar alguns exemplos vividos no dia-a-dia para exemplificar esses níveis: andar numa montanha-russa, picar e cortar carne com uma faca extremamente afiada numa tábua de madeira ou contemplar uma obra de arte. Essas três atividades causam impactos diferentes em nós. A primeira é mais primitiva, origina-se do comportamento visceral, já a segunda está no prazer em usar uma ferramenta eficiente, ao qual se referem aos sentimentos de realização de tarefas especializadas e atuam no nível comportamental. O último se origina do nível reflexivo, ao qual exige estudo e interpretação para contemplar uma obra de arte.

Os três níveis interagem eternamente entre si, cada um modula o outro. São um conjunto. O fato é que, tudo o que fazemos possui componentes de cognição e componentes de afeto. O cognitivo serve para atribuir significado a algo, já o afetivo atribui valor as coisas. O afeto está sempre presente, mas fato consumado é que o sentimento de afeição quer seja positivo ou negativo, interfere na maneira como pensamos. Estudos provam quando se está em estado de afeto positivo, se tem muito mais probabilidade de ser receptivo a novas idéias ou acontecimentos. O cérebro está relaxado. Este estado desperta a curiosidade, envolve a criatividade e torna o cérebro um organismo eficiente de aprendizado. Por outro lado o estado negativo reflete a atitudes ansiosas e nervosas.

Mas de que maneira esses níveis tem ligação com o design? Segundo Norman (2008, p.46)quando alguém está relaxado, em bom humor, é mais criativo, está mais capacitado em lidar com problemas de um equipamento qualquer, em especial se for divertido de usar. Segundo o mesmo autor “os objetos feitos para serem usados em situações estressantes exigem muito mais cuidado, e muito mais atenção ao detalhe”. Caso que acontece quando se está em estado negativo. O usuário reage de maneira estressada, impaciente para com o objeto. Isso torna seu uso complicado e desinteressante.

Mas o que faz desses produtos serem atraentes ou não? Além de sabermos que boa parte dessa percepção está relacionada com o afeto que o usuário tem do produto, existem outros fatores de desenho industrial ao quais influencia cada observador perante o produto.

Para se projetar um produto industrial é necessário conhecer uma série de elementos de configuração formal. Norman (2008, p.57) fala que “a usabilidade descreve a facilidade com que o usuário do produto pode compreender como ele funciona e como fazê-lo funcionar. Mas se o produto fizer o que é necessário, se for divertido de usar e com ele for fácil satisfazer as metas, então o resultado é afeto positivo e caloroso”.

O que conclui que, existem inúmeros aspectos que são percebidos pelos usuários, desde afetos emocionais até aspectos de percepção formal, que muitas vezes são inconscientes para o observador. Estes fundamentos do desenho é que são de conhecimento imprescindível para o desenhador, e é disso que precisamos saber fundamentalmente.

 

kairaamiella

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: